FIM DOS TEMPOS: quando o lar vira o palco da tragédia que o Estado não soube evitar

Na sexta-feira (15), em Joaquim Nabuco, Zona da Mata Sul de Pernambuco, uma cena se desenrolou como tantas vezes já aconteceu em diferentes cantos do país: sirenes, correria, indignação popular e a chegada de policiais para conter uma fúria coletiva que nascia em meio à dor. Uma jovem de apenas 20 anos era levada presa, acusada de cometer o crime que nenhum ser humano gostaria de acreditar possível: tirar a vida da própria filha, uma menina de dois anos que completaria três no fim de agosto.

O corpo da criança foi encontrado ao lado da mãe, em circunstâncias que a Polícia Civil já classificou como homicídio por estrangulamento. A brutalidade do gesto, a inocência da vítima e a idade da suspeita se tornaram ingredientes de uma tragédia que poderia ser lida apenas pelo choque imediato. Mas o caso, assim como tantos outros que ocupam páginas policiais, revela uma engrenagem social e política mais profunda — e falida.

A multidão e a justiça com as próprias mãos

Diante da casa onde tudo aconteceu, vizinhos se aglomeraram, revoltados. Alguns choravam, outros gritavam, muitos queriam fazer justiça ali mesmo, com as próprias mãos. A polícia chegou a tempo de evitar que o linchamento transformasse uma tragédia em massacre. Mas o que chama atenção é a raiva coletiva, um sentimento que, embora legítimo, escancara também a descrença generalizada na Justiça e na capacidade do Estado de proteger vidas frágeis.

Em vídeos que rapidamente se espalharam pelas redes sociais, é possível ver a tensão: celulares erguidos, gritos de revolta e a polícia tentando impor autoridade diante de uma multidão que já havia condenado a jovem. É a catarse pública de uma comunidade que se sente traída — não apenas pela mãe que matou a filha, mas por um sistema que falhou com ambas.

Um histórico ignorado

A suspeita não era desconhecida da Justiça. Havia sido presa anteriormente por tráfico de drogas e ganhou liberdade provisória sob a justificativa de que precisava cuidar da filha. A decisão, que poderia ser interpretada como um gesto humanitário do sistema prisional, terminou por expor a fragilidade de uma engrenagem que raramente acompanha seus atos até o fim.

Não havia acompanhamento psicológico. Não havia rede de apoio. Não havia fiscalização. Havia apenas uma assinatura em um papel, uma determinação burocrática que entregava uma criança ao convívio de uma mãe sem condições de exercitar plenamente o cuidado. E quando a tragédia se concretizou, não foi apenas um drama familiar: tornou-se um retrato cruel da distância entre decisões judiciais e a realidade concreta das periferias brasileiras.

A política que não chega onde deveria

O caso de Joaquim Nabuco não é um acidente isolado. Apenas nesta semana, em Minas Gerais, outra mãe denunciou a madrasta da filha após receber áudios em que a mulher prometia jogar a menina pela janela. A ameaça, embora não concretizada, foi suficiente para abrir investigação. Em ambos os episódios, o que salta aos olhos não é apenas a violência — mas a ausência de políticas públicas eficazes para preveni-la.

No Brasil, o Conselho Tutelar, peça-chave da rede de proteção à infância, funciona muitas vezes sem estrutura, com equipes reduzidas, baixo orçamento e sobrecarga de casos. Delegacias especializadas são poucas. Programas de acompanhamento psicológico de mães em situação de vulnerabilidade quase não existem. A engrenagem que deveria intervir antes da tragédia se move, em geral, apenas depois que ela já aconteceu.

Uma crônica da omissão

O drama da menina morta pela própria mãe não é, portanto, apenas uma manchete policial. É uma crônica da omissão. Uma história que ecoa em tantas outras tragédias silenciosas que acontecem em lares brasileiros sem nunca virar notícia. E que revela a lógica perversa de um Estado que se mostra implacável na repressão, mas débil na prevenção.

Enquanto a população reage com fúria e indignação, a política se mantém refém de promessas não cumpridas. Especialistas em infância e juventude alertam há anos que tragédias assim poderiam ser evitadas com políticas consistentes, apoio a famílias desestruturadas e presença efetiva do Estado nos territórios mais vulneráveis. Mas o ciclo se repete: negligência, tragédia, comoção, silêncio, esquecimento.

Até quando?

Em Joaquim Nabuco, uma menina de dois anos perdeu a vida de forma cruel. Sua mãe voltou para o sistema prisional. A comunidade chora, a polícia investiga, os especialistas opinam. E amanhã, em outra cidade, outra criança pode estar vivendo seu último dia sem que ninguém perceba.

A pergunta que resta, incômoda e inevitável, é a mesma que ecoa em cada tragédia dessa natureza: até quando a infância brasileira seguirá à mercê da violência, da negligência e da ausência de políticas que realmente funcionem?

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